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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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O eixo do mundo está mudando

O declínio político do Ocidente e a ascensão estratégica da Ásia

Bandeiras dos EUA e da China em foto de ilustração - 10/04/2025 (Foto: REUTERS/Dado Ruvic)
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A recente derrota do Partido Trabalhista no Reino Unido não foi apenas mais um episódio da crise política europeia. Ela é parte de um fenômeno muito maior: o desgaste gradual das estruturas econômicas, sociais e institucionais que sustentaram o poder do Ocidente desde o pós-guerra.

Durante décadas, a Europa Ocidental construiu estabilidade política sobre uma combinação relativamente bem-sucedida de crescimento econômico, industrialização, ampliação do Estado de bem-estar social e integração regional. O pacto social europeu do pós-guerra produziu algo raro na história do capitalismo: crescimento com relativa proteção social e redução importante das desigualdades.

Esse modelo, porém, começou lentamente a se desgastar.

A globalização financeira deslocou cadeias industriais para outras regiões do mundo, especialmente a Ásia. A financeirização fortaleceu o setor bancário e os mercados financeiros, mas reduziu a centralidade da economia produtiva. O trabalho industrial perdeu peso político e social. Ao mesmo tempo, o envelhecimento populacional, a desaceleração econômica e a crise fiscal permanente passaram a pressionar os sistemas de proteção social europeus.

A crise de 2008 acelerou brutalmente esse processo.

Desde então, grande parte da Europa vive sob crescimento baixo, austeridade recorrente, precarização do trabalho e crescente fragmentação política. O eleitorado passou gradualmente a desconfiar de partidos tradicionais que parecem incapazes de oferecer respostas concretas à deterioração econômica e social.

É nesse ambiente que se expande a extrema direita europeia.

Na França, forças nacionalistas ampliam presença eleitoral há anos. Na Alemanha, a AfD cresce justamente em regiões economicamente fragilizadas. Na Itália, a direita nacionalista tornou-se força dominante. E mesmo no Reino Unido, antigos redutos operários passaram a migrar para partidos conservadores ou movimentos de direita radical.

A guerra na Ucrânia aprofundou ainda mais as dificuldades europeias.

A ruptura energética com a Rússia elevou custos industriais, pressionou a inflação e reduziu a competitividade. A indústria alemã, motor histórico da economia europeia, passou a enfrentar dificuldades que poucos imaginariam há uma década. Empresas começaram a rever investimentos, enquanto o continente amplia gastos militares ao mesmo tempo em que enfrenta deterioração social e perda de dinamismo econômico.

Mas talvez o aspecto mais importante dessa crise não esteja apenas dentro da Europa.

Está fora dela.

Porque, enquanto o Ocidente atravessa um ciclo de fragmentação política, fadiga institucional e desaceleração econômica, a Ásia vive um movimento histórico quase inverso.

A China consolidou-se como potência industrial, tecnológica e financeira de escala global. A Índia amplia rapidamente sua presença econômica e geopolítica. A Coreia do Sul tornou-se referência em tecnologia avançada, semicondutores e inovação industrial. Países do Sudeste Asiático transformaram-se em pólos estratégicos das novas cadeias globais de produção.

Existe aqui uma diferença decisiva.

Enquanto parte importante da política europeia tornou-se defensiva — preocupada em conter declínio econômico, imigração descontrolada, perda de competitividade e tensões fiscais — boa parte da Ásia ainda opera sob uma lógica de expansão, modernização e construção estratégica de longo prazo.

A diferença de horizonte histórico é profunda.

Sociedades que vivem expectativas de ascensão tendem a apresentar maior coesão política e maior confiança nas instituições. Já sociedades que convivem longamente com sensação de perda relativa produzem fragmentação, radicalização e crises recorrentes de legitimidade.

A transformação em curso também começa a alterar profundamente a relação entre Ásia e África. A China ampliou pesadamente sua presença no continente africano nas últimas duas décadas por meio de investimentos em infraestrutura, energia, mineração, ferrovias, portos e telecomunicações. Mais do que comércio, trata-se de construção de influência estratégica de longo prazo. Em muitas regiões africanas, Pequim passou a ocupar espaços econômicos e diplomáticos que antes eram dominados pelas antigas potências europeias. Esse movimento ajuda a mostrar que o deslocamento do centro dinâmico da economia mundial não se limita ao crescimento asiático em si, mas envolve a formação gradual de novas redes de integração econômica e política fora do eixo tradicional do Atlântico Norte.

Os Estados Unidos de Donald Trump também precisam ser compreendidos dentro dessa conjuntura mais ampla.

O trumpismo não surgiu apenas de polarização ideológica ou disputa cultural. Ele expressa parte da reação americana ao deslocamento gradual do centro dinâmico da economia mundial para o Indo-Pacífico. A agressividade comercial contra a China, o discurso nacionalista, a pressão sobre aliados europeus e a tentativa de reindustrialização americana refletem precisamente a percepção de que a hegemonia econômica dos Estados Unidos já não possui a mesma estabilidade das décadas anteriores.

Trump captou politicamente algo que parte das elites ocidentais demorou a admitir: a globalização desenhada sob liderança americana acabou fortalecendo justamente a Ásia, especialmente a China.

Há uma ironia histórica nisso.

O sistema econômico internacional organizado pelo Ocidente após a Guerra Fria ajudou a criar as condições para o fortalecimento de seus principais competidores estratégicos. Durante décadas, empresas ocidentais transferiram tecnologia, produção industrial e investimentos para a Ásia em busca de custos menores e maior lucratividade. O resultado foi a construção gradual de um novo centro dinâmico da economia mundial.

Hoje, o Ocidente tenta reagir a essa transformação.

Mas reage já em posição defensiva.

A própria crise das democracias liberais ocidentais está ligada a esse deslocamento histórico. O eleitor europeu ou americano percebe, ainda que de forma difusa, que o mundo construído pelo Atlântico Norte já não ocupa sozinho o centro da expansão econômica global.

É exatamente essa sensação de perda relativa que alimenta nacionalismos, protecionismos, radicalização política e crises de legitimidade institucional.

Enquanto isso, a Ásia avança não apenas economicamente, mas também geopoliticamente.

Projetos de infraestrutura, integração regional, desenvolvimento tecnológico e expansão comercial passaram a reposicionar o continente asiático no centro das grandes transformações do século XXI.

O eixo do mundo está mudando.

E talvez a principal dificuldade do Ocidente seja justamente esta: compreender que a crise atual não é apenas conjuntural, mas parte de uma transição histórica muito mais profunda do que muitos ainda estão dispostos a admitir.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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