Repactuação na Praça dos Três Poderes
"Chegou a hora de os chefes dos três Poderes se reunirem e, quem sabe até, formalizarem por escrito um novo tratado de paz", defende Helena Chaga

Carregando conteúdo
Preparando informações de Brasil Hoje…

Todos os que ouviram o ministro Luís Roberto Barroso, no discurso de posse na presidência do STF, falar em pacificação e contenção — destacando que nenhum poder é hegemônico — sabem do que se trata: botar ordem na casa institucional, depois que os anos bolsonaristas acirraram ao extremo a desorganização nas relações entre Executivo, Legislativo e Judiciário — que já não eram tão funcionais assim. A brutalidade do 8/1, após um mandato de costumeiras ameaças golpistas do chefe do Executivo, exigindo reação imediata, pode ter atrasado a necessária repactuação entre os três Poderes. Já era urgente, e hoje é mais ainda, que cada um retorne à sua casinha institucional.
Ainda vivemos sob distorções criadas por Bolsonaro. Ele criou um cenário em que o presidente da República, para ter garantia de não sofrer impeachment, terceirizou a função de governar para o Congresso comandado pelo Centrão e alimentado pelo orçamento secreto. Esse último mecanismo foi responsável, em grande parte, pela reprodução dessa situação disfuncional: a reeleição de uma bancada majoritária de centro-direita, com a qual um governo popular de centro-esquerda tem que conviver.
Hoje, vê-se que o Executivo de Bolsonaro acabou encolhido porque ele estava mais preocupado em andar de moto, subir num jetski e planejar golpes. Mas seu sucessor, mesmo a custas de inevitáveis alianças políticas com o Centrão, como vem ocorrendo, tem que recuperar garantias de governar na plenitude de suas prerrogativas institucionais. Desentendimentos e trombadas políticas são comuns entre Congresso e governo quando este não tem maioria, o que ocorre quase sempre, mas podem ser resolvidos pelo caminho da negociação — jamais, porém, pela usurpação de poder e funções inerentes ao Executivo.
Estão certas também as avaliações de que o Judiciário, sobretudo o STF, avançou e foi além das próprias chinelas. Ainda bem que foi. O que teria sido de nós sem o Supremo no caso das vacinas, isolamento e outras medidas na pandemia? Certamente teríamos mais mortos do que os absurdos 700 mil registrados. O que teria sido de nós, também, sem a resistência e as decisões firmes do TSE para defender as eleições e a posse do eleito? Não dá nem para imaginar, e minha única certeza é de que não estaria aqui escrevendo livremente o que penso.
Diferentemente do que ocorre com o Legislativo, a hipertrofia do Judiciário não tem razões fisiológicas. Boa parte do ativismo deu-se nos difíceis anos Bolsonaro. Só que, assim como cachimbo faz a boca torta, o pessoal da toga cometeu exageros, inclusive em temas que deveriam estar sendo tratados pelo Congresso — mas que, veja-se bem, não o foram, num comportamento omisso que levou a sociedade a cobrar decisões do Supremo. Mas o Supremo também precisa recuar — ou praticar a “contenção" a que seu presidente se referiu.
Hoje, o conflito se dá em torno da pauta ideológico- comportamental, o último reduto do bolsonarismo para se manter vivo. O Centrão — por razões outras que passam, por exemplo, pela posse da Caixa Econômica — se junta à direita radical e aproveita para chantagear o Planalto, paralisando votações da pauta econômica sob o pretexto de reagir a posições do Supremo sobre marco temporal, descriminalização do aborto, porte de drogas, etc. Lula tenta se manter distante dessa agenda, mas pode ser a primeira vítima da triangulação perversa do Congresso.
Não há, como dissemos, novidade alguma em atritos entre os Poderes em tempos de normalidade. É esse estado que a repactuação institucional precisa garantir. Todos brigam, mas respeitam poderes e limites definidos na Constituição, sem espertezas e puxadas de tapete. Ficou claro que Bolsonaro mentiu, pois as “quatro linhas” não só foram ultrapassadas nas tentativas de golpe, mas tiveram riscas apagadas. Urge restabelecê-las num convívio minimamente civilizado na Praça dos Três Poderes.
Nove meses após o horror, superados os riscos e iniciadas as imprescindíveis punições aos golpistas — que devem ir dos vândalos da rua a Bolsonaro e militares de alta patente — chegou a hora de os chefes dos três Poderes se reunirem e, quem sabe até, formalizarem por escrito um novo tratado de paz.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.