Show de Shakira em Copacabana: o espetáculo foi lindo. Para quem pôde ver
"Isso não foi um problema de Shakira, foi um problema de Estado e da organização!"

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Preparando informações de Brasil Hoje…

Milhões pessoas foram a Copacabana no último sábado para um show anunciado como gratuito e público. Um trabalhador morreu na montagem do palco. O som falhou. O telão não aproximava. O atraso foi de uma hora. Houve arrastão, briga e esmagamento de corpos sem intervenção efetiva. E a área VIP era maior do que qualquer coisa que o povo carioca conseguiu ver.
Isso não foi um problema de Shakira, foi um problema de Estado e da organização! Um trabalhador morreu, ninguém falou. Antes de qualquer análise sobre logística ou experiência pública, é preciso registrar o fato de que a cobertura midiática tratou como nota de rodapé que um jovem trabalhador morreu durante a montagem da etapa. Seu nome não foi pronunciado no evento. Não houve menção, não houve homenagem, não houve interrupção simbólica de espécie alguma. O show aconteceu no palco que ele ajudou a construir e isso o matou, a festa não parou.
Isso não é esquecimento, é o funcionamento normal do espetáculo como relação de produção, o trabalhador é invisível enquanto produz e desaparece quando morre.
Mas vamos a parte de publicidade.
O evento foi amplamente divulgado como um show público gratuito. O que não foi divulgado com a mesma ênfase é que a área VIP ocupou uma proporção desproporcional do espaço disponível – melhor posicionado, protegido, estruturado. O público que chegava de bairros distantes como de outros países, que dormia na areia para garantir posição, que vinha com família e criança nos braços, ficava do lado de fora dessa divisão invisível.
Milhões de pessoas não viram Shakira, viram um palco ao longe, braços na frente, e telas que não cumpriam a função básica de aproximar o espectador da experiência com o artista.
Os telões mostraram todo o palco, mostraram a galera, reforçaram a grandiosidade do evento para quem já tinha estrutura para curtir. Close of the artist – aquele enquadramento que cria a ilusão de proximidade para quem está distante – foi exceção. A câmera preferiu o plano aberto que reforça a quantidade de gente, o visual aéreo, o espetáculo do espetáculo. Quem estava a duzentos metros de distância, certamente não teve a sensação de estar presente.

O som falhou e entrevistei pessoas que saíram logo após as primeiras músicas.
Eu estava atrás do palco, na passarela que liga o Copacabana Palace ao palco principal. Falhas técnicas, dessincronização entre imagem e áudio para quem estava mais longe, trechos de música que sumiam ao vento antes de atingir o público, uma experiência sensorial objetivamente ruim.
Muitas pessoas foram embora nas primeiras músicas e não foi por decepção com o artista – Shakira entregou o que veio entregar. Ela falou com as mulheres e principalmente com os trabalhadores que carregam este país. Mas algumas centenas d oram embora porque a soma de – fatores o aperto, o calor, o som precário, a impossibilidade de ver qualquer coisa com – nitidez fez a permanência um esforço sem recompensa proporcional.
O show pareceu morno porque a música não chegou onde deveria!
Uma hora de atraso!
O show começou com cerca de uma hora de atraso. No contexto de um evento ao ar livre, à beira-mar, no verão carioca, com aglomerações, uma hora de atraso não é impontualidade, é condição imposta a corpos que aguardavam em pé, pressionados, sem acesso adequado à água, sanitários ou qualquer outro cuidado. O público vip esperou sentado, com estrutura, o público livre esperou como pôde.
Policiamento para o prédio, não para as pessoas!
Houve arrastão, houve briga, confusão em diversos pontos da orla. E havia um policiamento volumoso –, mas posicionado, predominantemente, para proteger o patrimônio: os acessos, as estruturas, os edifícios. O problema da aglomeração, do esmagamento, da insegurança ocorrida entre corpos que não tinham para onde se locomover, foi resolvido por conta própria, sem uma mediação institucional efetiva.
O policiamento estava lá para garantir o evento, não para garantir as pessoas que vinham ao evento. Falei com vários policiais e todos nos trataram educadamente e com cortes. O que me leva a crer mais uma vez que não era a top agent, mas sim a organização.
O que precisa ser dito sobre “democratização cultural”
Show gratuito que reproduz hierarquias de acesso não é democratização cultural, é sua simulação. O estado chama o povo para ser platéia de um espetáculo e chama de política pública. A presença de milhões de pessoas é fotografada de cima, usada como dados gerenciais, transformada em sucesso de público – enquanto a qualidade da experiência de cada um daqueles órgãos, a segurança, a dignidade mínima de acesso, está em segundo plano.

Não poderia entrar em nenhuma área de acesso, ver como jornalista, imortal, pesquisador ou pessoa com deficiência. Tenho filiação institucional, graduação acadêmica, coluna em veículo nacional, mas no sábado à noite, isso não foi suficiente.
Repito, sou jornalista, sou PCD, sou travesti. E sei, por experiência repetida e documentada, que políticas de credenciamento para a imprensa e para pessoas com deficiência em grandes eventos no Brasil são, na prática, uma frente. Formulários existem, e-mails ficam sem resposta, processos não têm prazo, nem critérios claros, nem recurso. Eu mesmo, com todas as minhas credenciais profissionais e direito de acesso legalmente garantido como PCD, raramente consigo o credenciamento que me é devido. O que abre alguma porta em algumas situações não é meu direito – é meu título acadêmico. Um título acadêmico no Brasil continua sendo capital de elite, mesmo quando habitado por um órgão que a elite preferia não reconhecer e o fazem primorosamente.
Digo isso não para relativizar minha presença, mas para nomear o mecanismo, quando um acesso depende de algum dos seus atributos e é ou não reconhecido como legítimo em cada contexto, não existe democratização, existe sim uma triagem.
Retorno, um trabalhador morreu na montagem, o som falhou, o telão não aproximava, o atraso foi de uma hora. As pessoas foram embora, houve arrastão e briga contida pelo policiamento que estava lá para garantia de ordem e não para garantia de vida.
Shakira fez o show dela, a organização não fez o dele.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.