Silvio Da-Rin, saudoso parceiro
Silvio Da-Rin saudoso parceiro naqueles tempos heroicos da implantação da TV Brasil

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Há pouco tempo perdemos Silvio Tendler, nosso mestre do documentário. Partiu Silvio Da-Rin, cineasta que foi também um importante articulador de políticas públicas para o audiovisual e para a TV Pública. Enquanto fui presidente da EBC, tive nele um parceiro excepcional, inventivo e generoso, sempre empenhado em dinamizar o audiovisual, abrindo caminhos para os jovens criadores.
Os dois Silvios foram homens da resistência, do combate à ditadura e da construção democrática. Ainda na ditadura, já na transição, Tendler sacudiu a memória dos brasileiros ao regatar nomes demonizados pela ditadura e sua censura. Em 1980 ele fez Os Anos JK – Uma Trajetória Política, e quatro anos depois fez Jango (que ainda hoje não recebeu a merecida luz e reconhecimento). Completou a triologia com Tancredo: A Travessia (2011). Sua longa filmografia inclui muitos outros documentários importantes. Ele também foi um bom parceiro da TV Brasil em seus primeiros quatro anos. Em coprodução com a EBC ele fez A Era das Utopias, Advogados contra a Ditadura e Caçadores da Alma.
Mas agora quero falar de Da-Rin, que acaba de partir e está sendo muito lembrado por seus filmes mais importantes, como Hercules 56, Fênix, Missão 115, Igreja da Libertação ou Paralelo 10.
Quero lembrá-lo como saudoso parceiro naqueles tempos heroicos da implantação da TV Brasil, da qual eu falo em meu livro “Memória de Um Desafio – A guerra da TV Pública e a criação dos Sistema EBC”. Autografei um exemplar para ele mas nunca coloquei no Correio.
Eu era presidente da EBC e ele era Secretário do Audiovisual no MinC. Quando ele pedia um encontro comigo eu sabia que ele viria com uma proposta irrecusável, apesar do custo. Uma delas foi o FICTV, pelo qual financiaríamos, selecionando por editais, três projetos de minisséries para exibição na TV Brasil. Deu tudo certo e deste projeto resultaram as minisséries Vida de Estagiário, Brilhante Futebol Clube e Natália.
Logo depois Silvio inventou e me propôs o AnimaTV, programa que financiou, com recursos da EBC e do MinC, a produção de 18 pilotos e o desenvolvimento completo de duas séries de animação: Tromba Trem e Carrapatos e Catapultas. A animação brasileira, que floresceu muito posteriormente, deve a Silvio este primeiro impulso público.
Numa tarde tumultuada na EBC, Silvio apareceu fora da agenda e esperou até que eu pudesse atendê-lo para ouvir a proposta do LongaDoc, parceria destinada a financiar cinco longametragens com recursos da EBC e do MinC. Foram produzidos e um deles é A Longa Viagem, de Lucia Murat, que fala da ditadura e dos sofrimentos dela decorrentes. Venceu o Festival de Gramado em 2011.
Quando Brasília ia fazer 50 anos, Silvio me apareceu propondo mais um filme. Concorreriam ao edital apenas cineastas da cidade e o filme deveria falar dela, mas com absoluta liberdade de abordagem. Deste projeto resultou A Cidade é Uma Só, de Adirley Queirós, premiado no Festival de Brasília de 2011.
A parceria EBC-MinC gerou outros filhos mas não abdico de citar a lista inteira. Depois que deixei a EBC, só me encontrei com ele uma vez, embora tenhamos nos falado virtualmente. Perdi eu.
Veio o tempo do desmonte (Temer-Bolsonaro) e a EBC nunca mais reexibiu estas obras, embora em alguns casos o contrato o permita. Nos tempos atuais, seu rico acervo continua sendo ignorado. Da-Rin contribuiu muito para enriquecê-lo. Além de cineasta, foi o gestor cultural aplicado que eu conheci.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.