Rondon, o desbravador do Brasil profundo e defensor dos povos indígenas
Militar e sertanista nascido em 5 de maio de 1865 foi peça-chave na integração territorial do país e referência ética na relação com os povos originários

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247 – Nascido em 5 de maio de 1865, em Mimoso, no atual estado de Mato Grosso, o marechal Cândido Mariano da Silva Rondon tornou-se uma das figuras mais decisivas da história brasileira ao liderar a integração do território nacional e estabelecer uma política inédita de respeito aos povos indígenas. Militar, engenheiro e sertanista, Rondon deixou um legado que atravessa gerações e ainda hoje influencia o debate sobre soberania, desenvolvimento e direitos humanos no Brasil.
Ao longo de sua trajetória, Rondon esteve à frente de missões estratégicas que ampliaram a presença do Estado brasileiro em regiões até então isoladas. Seu trabalho mais emblemático foi a instalação de linhas telegráficas que conectaram o Centro-Oeste e a Amazônia ao restante do país, em uma época em que a comunicação era essencial para consolidar a unidade nacional.
A atuação de Rondon ocorreu em um momento crítico da formação do Estado brasileiro, quando vastas áreas do território permaneciam praticamente desconectadas dos centros políticos e econômicos. Como chefe da Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas, ele liderou expedições que atravessaram regiões inóspitas, abrindo caminhos, mapeando áreas e estabelecendo infraestrutura básica.
Essas missões não apenas viabilizaram a comunicação, mas também contribuíram para a consolidação das fronteiras nacionais e para a presença efetiva do Estado em áreas estratégicas. Ao conectar regiões distantes, Rondon ajudou a transformar o Brasil em uma nação mais integrada, fortalecendo sua soberania territorial.
Seu trabalho teve impacto direto na ocupação e no desenvolvimento de regiões que mais tarde se tornariam polos importantes do agronegócio e da economia nacional. Ao mesmo tempo, suas expedições produziram vasto conhecimento geográfico e científico sobre o interior do país.
Um dos aspectos mais marcantes da trajetória de Rondon foi sua postura em relação aos povos indígenas. Em contraste com práticas violentas e excludentes comuns à época, ele defendia uma abordagem baseada no diálogo e no respeito.
A frase que sintetiza sua filosofia — “Morrer, se preciso for; matar, nunca” — tornou-se um marco ético na história brasileira. Rondon acreditava que o contato com os povos indígenas deveria ser pacífico, evitando confrontos e promovendo a convivência.
Essa visão levou à criação, em 1910, do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), órgão precursor da atual Funai. A iniciativa representou uma mudança significativa na política indigenista do país, ao reconhecer a necessidade de proteger os direitos e as culturas dos povos originários.
Ao longo de suas expedições, Rondon estabeleceu contato com diversas etnias, muitas delas até então isoladas, sempre buscando minimizar impactos e preservar vidas. Sua atuação é frequentemente lembrada como um contraponto histórico às políticas de extermínio e assimilação forçada.

Além de sua atuação militar e administrativa, Rondon também teve papel relevante na produção de conhecimento científico. Suas expedições contribuíram para estudos nas áreas de geografia, etnologia e cartografia, ampliando o entendimento sobre o território brasileiro.
Ele também ganhou projeção internacional ao participar da famosa Expedição Roosevelt-Rondon, entre 1913 e 1914, ao lado do ex-presidente dos Estados Unidos Theodore Roosevelt. A missão explorou o então desconhecido Rio da Dúvida, posteriormente rebatizado como Rio Roosevelt.
O reconhecimento por seu trabalho ultrapassou as fronteiras do Brasil. Rondon chegou a ser indicado ao Prêmio Nobel da Paz, em função de sua atuação humanitária junto aos povos indígenas — um feito raro para uma figura militar.
O legado de Rondon permanece vivo em diversas dimensões da sociedade brasileira. Seu nome batiza o estado de Rondônia, além de municípios, instituições e projetos espalhados pelo país.
Mais do que homenagens simbólicas, sua trajetória continua a inspirar debates contemporâneos sobre desenvolvimento, integração regional e direitos indígenas. Em um contexto de disputas territoriais e pressões sobre áreas indígenas, os princípios defendidos por Rondon ganham nova relevância.
Sua visão de um Brasil integrado, soberano e socialmente justo dialoga com desafios atuais, especialmente no que diz respeito à preservação ambiental e ao respeito às populações tradicionais.
Cândido Rondon não foi apenas um militar ou explorador. Ele foi um construtor do Brasil moderno, cuja atuação ajudou a moldar o território, as instituições e a consciência nacional.
Ao completar mais de um século de sua atuação mais intensa, sua figura permanece como referência de ética pública, compromisso com o país e respeito à diversidade humana. Em tempos de revisão histórica e disputas narrativas, revisitar o legado de Rondon é também refletir sobre os caminhos do Brasil e os valores que devem orientar seu futuro.