Lula discute com CEO do Google "os riscos da IA, especialmente para meninas e mulheres"
Presidente discute com Sundar Pichai regulação e investimentos e defende governança multilateral para evitar desigualdades e abusos no uso da tecnologia

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247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta quinta-feira (19), em Nova Déli, na Índia, que discutiu diretamente com o CEO do Google, Sundar Pichai, os impactos e perigos associados ao avanço da inteligência artificial, com atenção especial aos riscos enfrentados por meninas e mulheres. O encontro ocorreu durante a Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial, evento promovido pelo governo indiano para debater os rumos da tecnologia no cenário global.
A informação foi divulgada pelo próprio presidente em postagem nas redes sociais, na qual relatou que a reunião foi solicitada por Pichai e abordou tanto investimentos da big tech no Brasil quanto temas sensíveis ligados à regulamentação e ao uso ético da IA.
Segundo Lula, o CEO do Google ressaltou a importância estratégica do Brasil para a empresa, destacando investimentos no país, a abertura do Centro de Engenharia em São Paulo e ações voltadas à infraestrutura digital e parcerias com o setor público. O presidente afirmou ainda que, durante a conversa, o governo brasileiro apresentou sua visão para o desenvolvimento da inteligência artificial e detalhou iniciativas já em curso na área de serviços públicos digitais.
Entre os pontos discutidos, Lula citou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial e a estratégia do governo para atrair investimentos em datacenters. Também entrou na pauta o debate em andamento no Congresso Nacional sobre um marco regulatório para o setor, incluindo medidas de proteção à indústria criativa brasileira diante do avanço de ferramentas capazes de reproduzir e manipular conteúdos de forma automatizada.
O presidente destacou que manifestou preocupação com os riscos da tecnologia, “especialmente para meninas e mulheres”, tema que vem ganhando relevância em discussões internacionais devido ao uso da IA em práticas de violência digital e exploração. Ao final do encontro, Lula afirmou que o Google sinalizou compromisso em aprofundar a parceria com o governo brasileiro e ampliar ações com o setor privado no país.
Mais cedo, durante discurso na Cúpula de Impacto de Inteligência Artificial, Lula fez um alerta contundente sobre a concentração de poder no setor digital, afirmando que a tecnologia pode tanto impulsionar o desenvolvimento quanto aprofundar desigualdades históricas se não houver regras claras e participação internacional equilibrada.
O presidente afirmou que a humanidade vive uma “encruzilhada”, marcada pelo avanço acelerado da Quarta Revolução Industrial enquanto o multilateralismo “recua perigosamente”. Para Lula, essa combinação torna urgente a criação de normas internacionais para o uso da inteligência artificial, com uma governança global multilateral capaz de evitar que poucos países e empresas dominem os rumos tecnológicos do planeta.
Ele ressaltou que a Revolução Digital e a IA podem gerar ganhos expressivos em produtividade industrial, ampliar a eficiência dos serviços públicos e fortalecer áreas como medicina, segurança alimentar e segurança energética. No entanto, advertiu que as mesmas ferramentas podem ser empregadas para fins destrutivos.
Em seu pronunciamento, Lula citou ameaças associadas ao uso da inteligência artificial em armas autônomas, discursos de ódio, desinformação, pornografia infantil e violência contra mulheres e meninas. O presidente também mencionou feminicídio como um dos riscos relacionados ao uso indevido dessas tecnologias, além da precarização do trabalho em meio à automação crescente.
Outro ponto destacado foi o impacto dos conteúdos falsos gerados ou manipulados por IA. Lula afirmou que essas ferramentas têm potencial para distorcer processos eleitorais e ameaçar a democracia, ao espalhar narrativas fabricadas em escala massiva.
Para o presidente, algoritmos não devem ser tratados como códigos matemáticos neutros, mas como elementos inseridos em uma estrutura de poder que, sem ação coletiva, tende a reforçar desigualdades e ampliar a exploração econômica.
Um dos trechos mais enfáticos do discurso foi a crítica à concentração de infraestrutura computacional e de dados em poucos conglomerados globais. Lula afirmou que informações produzidas por cidadãos, empresas e governos estariam sendo apropriadas sem retorno proporcional em geração de renda e valor para os territórios de origem.
Citando dados da União Internacional de Telecomunicações, o presidente lembrou que bilhões de pessoas ainda permanecem fora do universo digital e alertou que, mesmo em 2030, centenas de milhões poderão continuar sem acesso à eletricidade.
Nesse contexto, Lula declarou: “quando poucos controlam os algoritmos e as infraestruturas digitais, não estamos falando de inovação, mas de dominação".
O presidente também relacionou a regulamentação das big techs à necessidade de proteger direitos humanos, assegurar a integridade da informação e defender as indústrias criativas. Segundo Lula, o modelo de negócios dessas empresas estaria baseado na exploração de dados pessoais, na renúncia à privacidade e na monetização de conteúdos sensacionalistas que alimentam processos de radicalização política.
No plano interno, Lula afirmou que o Congresso Nacional discute políticas para atração de investimentos em centros de dados e um marco regulatório para Inteligência Artificial. Ele também citou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, anunciado para 2025, como uma estratégia voltada à modernização de serviços públicos e à geração de emprego e renda.
Ao abordar o cenário internacional, Lula mencionou iniciativas em diferentes fóruns, como os BRICS, a Parceria Global em Inteligência Artificial surgida no G7 e a proposta chinesa de criação de uma Organização Internacional para Cooperação em IA voltada a países em desenvolvimento. Apesar dessas iniciativas, defendeu que nenhuma delas substitui o papel universal das Nações Unidas na construção de uma governança global efetivamente multilateral.
O presidente também destacou o Pacto Digital Global aprovado em 2024, em Nova York, e citou como avanço relevante a criação do Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial, apontado como passo importante para consolidar um organismo científico global sobre o tema.
Ao final do discurso, Lula elogiou a tradição intelectual e filosófica da Índia, afirmando que o país oferece referências importantes para enfrentar os dilemas éticos e sociais colocados pela inteligência artificial, especialmente em temas como justiça, diversidade, inclusão e resiliência.